"Quando uma criança vê, pela primeira vez, os adultos tais
como são, quando, pela primeira vez, lhe penetra na cabeça a
ideia de que os adultos não têm uma inteligência divina, de que os
seus juízos nem sempre são acertados, as ideias boas, as frases
correctas, todo o seu mundo desaba e dá lugar a um caos ater-
rador. Os ídolos caem e a segurança desaparece. E quando um
ídolo cai, não é só em parte, fica completamente esmagado e esti-
lhaçado ou desaparece sob um monte de estrume. Torna-se, en-
tão, difícil reconstituí-lo e, mesmo que o voltem a colocar no pe-
destal, ficam sempre manchas inapagáveis que denunciam a queda
passada. E o mundo da criança já não está intacto. Penosamente,
ir-se-á arrastando até ao estado de homem."
Trecho de "East of Eden" de John SteinbeckFiquei pensando nesse texto e me lembrei de uma crônica do Paulo Coelho (antiga, claro!). Era sobre como algumas pessoas reagiam quando descobriam que não existia Papai Noel, coelho da Páscoa e nem outros tantos mitos. E como isso podia ter um efeito avassalador na personalidade em formação daquela criança. Já adultas encaravam bem a realidade e o fato de que seus pais podiam mentir, enquanto outras realmente ficavam arrasadas e se tornavam céticas, recusando-se a acreditar em tudo o que não pudesse ser visto ou comprovado cientificamente. E eu me pergunto: Será que vale a pena fazer minha filha acreditar nesses mitos? Mesmo que depois eu lhe conte a verdade? E quando ela tiver tino o suficiente para perceber a desigualdade social? O que ela acharia de Papai Noel ao notar que ela ganhou o presente que pediu, enquanto outras crianças menos abastadas nem tiveram o que comer?
Mas ao mesmo tempo, será que é válido privá-la de toda essa "mágica" que envolve o natal, a páscoa...? Qual a idade certa para contar-lhe a verdade? Saberei a hora???
Este livro realmente está me fazendo pensar em muitas coisas....